Se primeiro sentimos e só depois pensamos, como é que ainda circula pela formação comum que não nos devemos deixar levar pelos nossos sentimentos na construção de negócios bem sucedidos?
Ignorar as nossas emoções até pode dar profissionais mecânica e aparentemente exímios. Poderá, eventualmente, prevenir muitas quedas, mas certamente também muitos voos. Ponho os meus 25 anos de experiência ao lume e as mãos no fogo na evidência de que não infusionar um negócio de atenção à emoção – tanto na sua criação como na sua gestão – não dá colegas construtivos, colaboradores bem resolvidos, líderes esclarecidos, equipas tolerantes, clientes generosos. Não só não vejo a emoção como inimiga da razão, como acho este “treino” para a ignorância do seu espaço extremamente perigoso. Hoje, mais do que nunca, são bem claras no mundo as consequências de se ter abordado o sucesso como uma fórmula meramente fiscal baseada em lucro. Ou melhor: o lucro baseado apenas na manutenção da linha entre gasto e ganho mantida à superfície, e não a custo de quê, ou de quem. Sucesso, é, para mim, cuidar da manutenção dessa linha e desse crescimento promovendo 3 ingredientes tão subtis quanto essenciais: inteligência emocional, sustentabilidade e estabilidade.

Quantos de nós não saberemos lidar com as mais variadas situações porque simplesmente nunca lidámos com as nossas emoções? E quanto estará essa inaptidão a afetar os nossos negócios?
Como teria sido a minha vida, ou os meus negócios, se, quando me vi como gestor de um restaurante do qual o chef desapareceu, não tivesse tomado a decisão puramente emocional, intuitiva e em nada racional, de saltar para a cozinha e salvar como podia os jantares dessa noite?
Entrei assim numa cozinha-empresa como chef para além de empresário, e assim fiquei a conhecer por dentro a operação em toda a sua totalidade. Hoje encontro-me com 3 negócios gastronómicos, restaurantes de alta intensidade e rotação – um deles a funcionar desde o pequeno almoço ao jantar sem fechar – e todos são bem sucedidos, todos os anos, o que me diz que desligar-me da emoção seria perder por completo a razão.
Emoção é informação. Informação que, se aprendermos a escutar e aplicar, nos pode levar a todos os lugares onde queremos verdadeiramente chegar. No meu percurso profissional, sempre foi um ingrediente fundamental na preservação da autenticidade do que cozinho, no reconhecimento de quando me estou a perder e um barómetro para me encontrar. A título de exemplo: a memória emocional de no passado ter de lutar para me alimentar é que me levou a, desde o primeiro dia como empresário de um restaurante até hoje como chef, ser profundamente avesso ao desperdício, muito antes de ser moda ser assim.

É preciso também sensibilidade para lidar com os números. Eu prefiro ter um negócio estável, a entregar de forma consistente 80%, do que puxar pelos 100% à custa de implodir uma equipa e depois cair na percentagem de entrega. É preciso empatia para saber lidar com a falta de habilitações técnicas e com o facto de muitos dos empregos desta cadeia serem vistos como momentâneos sem desejar que fosse diferente, mas fazendo sempre para que seja melhor. Na teoria, todos sabem ter razão. Pegar na calculadora, descrever uma função. Mas na prática, é preciso muita inteligência emocional para fazer essa gestão de forma bem sucedida. Foi também a sensibilidade que me fez construir uma equipa de gestão leve, mas forte. Parca em consultores e generosa em fazedores, que me equipam a estrutura de tecnologia e agilidade e me permitem coisas tão essenciais e que, ainda hoje, parecem ser praticamente impossíveis, como manter uma folha de custos sempre atualizada. O que sei é que não é sustentável correr atrás de tudo para estar à frente, nem tão pouco funcionar como se nada tivesse mudado. Das duas uma: ou somos reféns, ou revolução. Como não quero ficar refém dos tempos, quis preparar-me. E isso implicou transformar o tempo e as coisas pelas quais já passei em experiência. E isso faz-se com recurso à emoção.
Talvez pense assim sobre o que sinto por ter perdido cedo e abruptamente o núcleo crítico e natural de segurança emocional: a minha mãe.
Até há bem pouco tempo, invejava os chefs que têm as receitas da mãe e da avó para colocar no prato, que herdam segredos e mezinhas. A infância a temperar-lhes a inspiração. A terra da família. Eu, nascido e criado pelo Chiado, achava que não me estava reservada essa sorte da ordem natural das emoções. Do amor, do afeto, da proteção.
Mas descobri, querendo ou não, que algo me estava reservado, nem que fosse a antítese de tudo isso. E que isso também era emoção. Postas as coisas em pratos limpos, na vida também há dor e na dor também reside o amor. A descoberta consciente deste processo emocional de aceitação da minha história emocionou-me. E, depois, entusiasmou-me.
A primeira pedra que assentei nesta minha construção do Negócio da Emoção foi abraçar a perda. Processá-la. E depois, com cuidado, experimentei manipulá-la. Comecei a querer (re)criar emoções. Servi-me da comida para não perder o amor, para me alimentar de afeto, para me proteger a memória. Aliás, muitas memórias sensoriais concretizaram-se em pratos que não foram fruto do concreto nem do académico, mas sim da minha imaginação. Era o ingrediente que tinha. O que é comovente e inspirador na emoção é ela tanto poder ser usada como um ingrediente para criar, como para nos preservar os olhos bem abertos às contratações que fazemos. Isto é, às vidas que carregam as pessoas com quem colaboramos.

A decisão de ser cozinheiro foi puramente emocional – até porque na altura não era de todo prestigiante. A minha namorada do momento motivou-me e fez-me acreditar que conseguia. E lá fui eu para Barcelona para aprender mais. E lá fiquei eu sem namorada.
Estive onde tudo se fazia certo, mas a energia era, na minha opinião, errada. A técnica sobrepunha-se a tudo o resto como um sabor demasiado forte que anula o palato. Ao desumanizar as pessoas, anulava-se o carinho no serviço, a alma, o talento, a entreajuda. Passava-se mais tempo a evitar o erro a todo o custo e isso custava muito dinheiro, sanidade e energia. Não me fez sentido ser motivado a não sentir, porque era dispendioso em todos os sentidos. Esta experiência foi determinante na minha decisão orgulhosamente irracional de comprar na totalidade o restaurante Oficina do Duque e assumir o projeto como meu. Queria liberdade técnica para induzir emoção no menu e gerir a equipa. O restaurante estava a cair e eu com ele. Não tinha razões nenhumas para o comprar. Mas a ligação emocional ao projeto fez-me não o abandonar e cair como gato: de pé. Assumi a responsabilidade de voltar a erguer o restaurante, o que sem grupos ou fundos a proteger-nos as costas é duro, mas também não me faz sentido morrer sem umas quantas cicatrizes. Hoje, a Oficina do Duque é esse restaurante que vive a trabalhar todo o dia, todos os dias. E bem.
Empurrar a vida através da cozinha para uma zona vibrante, em que as emoções são fatores de decisão, é uma disciplina deliciosa. Cozinhar profissionalmente é uma forma de voltar aos lugares onde já fui feliz. De lidar com a dor, de dar amor, de provocar prazer, de limpar o ar, de crescer e, definitivamente, um bom negócio. Cozinhar os números com sensibilidade à qualidade da comida e dos colaboradores é uma forma de me manter consciente do propósito disto tudo.
No meu percurso enquanto chef e gestor, o Negócio da Emoção dar-me-á sempre razão.
RUI REBELO


